segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A Caixa - Parte 1

Me lembro como se fosse ontem, aquele rapaz de olhar vago adentrando a porta do consultório. Sentou-se a minha frente e começou a chorar compulsivamente, quando ia acalmando, ao balbuciar algumas palavras nova onda de choro iniciava-se. Foi assim sua primeira consulta, saiu da sala agradecendo e pedindo se podia agendar novo horário para o dia seguinte.

(...)

Haviam-se passado 6 meses e Ulisses ainda não se sentia completo, dizia-me que por mais que tentasse não encontrava respostas para tantas indagações, não entendia o que tinha feito para sua noiva desistir de tudo às vésperas do casamento. Tinha sido sempre um bom companheiro, compreensivo, e as vezes até acomodado demais, deixando de expor suas reais opiniões sobre determinados assuntos, só para não iniciarem uma discussão, pois era sempre assim, com Catia. Se ele discordasse de seu ponto de vista, ela já levantava impaciente e dava inicio a uma longa discussão que sempre terminava com o “Me desculpe” de Ulisses, mesmo não sendo ele o culpado.

Ao lembrar-se desses episódios, ele voltava sempre a derramar um rio de lágrimas, estava sendo difícil a ele, mas ele sabia que tinha de se recuperar, tinha um bom emprego, uma boa condição social, era bonito e ao sair era bem desejado, estava sozinho neste tempo todo por opção, claro que dava aquelas saídas esporádicas, onde o que não existia era a palavra compromisso. Ele fugia disso, por ele, nunca mais teria um relacionamento sério.

Por vezes, tentei fazê-lo enxergar a situação por outros ângulos, afinal meu papel era esse, trazer pra realidade dos fatos e ajudar meus pacientes a encarar as situações com equilíbrio e sensatez. Era difícil para muitos que adentravam o consultório, separar e compreender que seres 100% emocionais, estão propensos a sofrerem mais, a se manter numa situação dolorosa por mais tempo, por se apegarem a fatos que já passaram e muitas vezes nem tiveram o peso que estes deram.

Diferentemente das outras consultas, Ulisses adentrou com uma Caixa de presente, toda embrulhada com muito cuidado e zelo. Realmente era uma caixa bonita e que chamava a atenção. Perguntei-lhe o que significava a mesma e novamente um choro doído como de uma criança veio à tona.

Após um considerado tempo, ele parou e começou a falar sobre a CAIXA.

... continua.

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